Lucilene Machado comenta o livro "Palavras Póstumas"
Palavras Póstumas – Diana Pilatti
Feminina, feminista, delicada, resistente, atrevida, silenciosa, vigilante, fértil, reticente... assim é a poesia de Diana Pilati com a qual vou costurando uma inefável experiência estética. São versos organizados em atendimento a um ritmo melódico interno e determinadas formas fonéticas que formam uma sequência de sons que acabam por sugerir pistas de seu significado:
“com palavras esgarçadas/ remendo /[poesia-safena]”
São arrumações que nos vão seduzindo pela voz da beleza: “18;30/ na aflição de sua chegada/ agonia/ e o relógio me mastiga”. O ritmo interno possui um padrão de estrutura fonética que funciona como um elemento artístico e, ao mesmo tempo como chave para a percepção do paradoxal mundo feminino, incluindo fertilidade e desolação. E, para que experiência estética e significado sejam completos, é preciso compreender um pouco a micropoesia que vem sendo exercitada por jovens poetas e por outros tradicionais que tentam se reinventar dentro de espaços como Instagran e twiter, que impõem limite de caracteres. A micropoesia é também uma forma de transgredir, de extrapolar esses espaços restritos com um discurso poético muito maior do o que se pode limitar. São poucos versos que condensam uma grande história ou algo intenso, cuja a beleza maior está no que não foi dito, no que sugerem as palavras, no que delas se adivinham, na intensidade dos sentimentos forjados, na profundidade das emoções que se criam com a combinações de vocábulos: Prostrado/ ante o medo agudo/ o Não/ mais uma vez/ reticenciou-se... Ou: Em seu terno naftalina/ monólogo/ palavra farpa/ ódio/ e meus olhos alagados.
“Palavras Póstumas” é um livro que joga com o que não está escrito, e isso atribui uma responsabilidade ao leitor que automaticamente se vê implicado nessas linhas e sente a necessidade de averiguar o resto. Lorca foi muito feliz ao dizer que “a poesia não quer adeptos, quer amantes”. Diana demonstra ser uma amante da poesia com sua carga de sensibilidade e ternura derramada sobre frases em primeira pessoa, além de um brilho nos olhos que refletem sensualidade, dor, ansiedade, sede.... em fim, a sua maneira de ser e estar no mundo:
A poesia esvai-se ao degelo do tempo
As manchas de sangue
Já não saem
No espelho sépia
Eu
Lacuna triste.
Lucilene Machado
Texto original no Facebook.
Para ler alguns poemas do livros "Palavras Póstumas", clique aqui.

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