Três poemas para Manoel de Barros

by - janeiro 03, 2020


Três poemas para Manoel de Barros
em comemoração ao seu 102º aniversário de nascimento dia 19 de dezembro. 




Com palavras se podem multiplicar os silêncios.
Manoel de Barros


Na palavra posso tudo,
crio e recrio poesia:
caracol tem dom de nuvem,
girassol quer vaga-lume,
e no olho da garça brota o dia.

No arrebol da palavra
nasce o silêncio
e a vitória-régia segue nua
rainha da noite
branca de lua.

No verso
rio e serra.
Na rima
a cigarra cala.
E no hálito do peixe
um ipê amarelo lambe a primavera.




Tudo é matéria de poesia.
Manoel de Barros 


a palavra adoece o poeta
febril desrima
e jaz poesia

decompõe sua essência
descoisa
e desexplica a vida

pega outra palavra
estica entorta torce
na entrelinha descobre
a palavra-desserventia




Deixei uma ave me amanhecer.
Manoel de Barros


Manoel acordou cedo.
Foi até o portão
e pregou o letreiro
pintado a dedo:
Aceita-se entulho para o poema.

As pessoas do Branco vilarejo,
riam dele:
- Velho louco,
bebeu tantas palavras
que não dá conta do desassossego!

Manoel nem aí.
Sabia da entrelinha das coisas:
- Tudo é matéria para poesia 
e cuidado onde pisa!
Era o que sempre dizia.

Chegava sorridente,
lá pelo meio-dia,
na bolsa de estopa suas relíquias:
Uma lata com gotas de sol,
Duas cascas de cigarra beijadas de orvalho,
Uma concha brilhando visgo e lesma
e muitas outras coisas passarinhais.

Assim Manoel seguia
seu sacerdócio ou profética sina
de arrancar de dentro do nada
a mais bela poesia.



Publicado na
Revista Barbante Ano VII nº 29, de 31 de dezembro de 2019, páginas 168 até 171.
ISSN 2238-1414

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