Prefácio do livro Palavras Diáfanas
No que ouso chamar de tríade da palavra, este é o terceiro livro de Diana Pilatti. Porém, não duvido que a autora nos presentei ainda com outras Palavras, dado que sua escrita inquieta e envolvente não se prende a temas, mas tem na palavra e suas inconstâncias, matéria primordial.
Em seu primeiro livro, Palavras Avulsas, o processo criativo encontrou na poesia e na metalinguagem o tema principal, retomado em tantos outros escritos de Diana. Em Palavras Póstumas, sua segunda publicação, a palavra se apresenta carregada de dores, denunciando a violência contra a mulher; o feminicídio, a trajetória do silenciamento e das injustiças. E, por fim, eis que surgem de sua tecitura poética os poemas que constroem estas Palavras Diáfanas.
“No princípio era o Caos
Então pari uma palavra
insuportável impronunciável
num verso de Solidão”
Com alegria, muita admiração, espanto e ternura que escrevo sobre estas Palavras Diáfanas. Com versos de uma sensualidade leve e envolvente, a poeta revela que sim, mesmo em tempos duros, é preciso cantar sobre o amor e a saudade. Explico, então, a minha escolha pela palavra espanto: em cada verso, a leitura nos permite desvendar e conhecer as faces e as fases de um eu-poético com o qual percorremos as horas, os dias, os meses. Entre a ausência e a presença de um amor que nos parece ora real, ora inventado, caminhamos.
“Assumo que te inventei
às três
e teus cabelos ainda eram negros
como as minhas madrugadas”
Todavia, não nos deixemos enganar: a palavra é raiz e consistência no fazer poético de Diana, pois “no tempo-deságue /palavra não fecha /abre” e tal qual um palco, vemos as cortinas se entreabrirem a cada carta.
Carta de janeiro, carta de fevereiro... as cartas surgem a cada mês; missivas que revelam um amor que é imaginado, inventado, amor que é físico, é corpo, é paixão; amor que é dor, separação... amor que é apenas amor.
Mas este não é um livro somente de cartas. Como já disse, as cartas parecem abrir as frestas para um mergulho mais intenso aos universos poéticos de Diana. As sensações físicas, o frio, o calor, o verão. Os dias conturbados entre filas, urbe, asfalto e calor contrastam com a imensidão do cosmos, deidades, seres mitológicos se apresentam em poemas intimistas e passionais, minimalistas ou mais próximos ao concretismo.
“sobe
labareda úmida
atreve-se
flancos pardos
incendeia lenta
nude
terracotauréolas
prece bendita
no meu verso torpe”
Entre os meses e as cartas, poemas diversos revelam paisagens, sentimentos; as mudanças das estações e das incertezas do próprio eu-poético, que pode questionar até a própria existência
“com a curiosidade de uma menina ante teus segredos de silêncios
e a sede da loba que corre noturna-colina
– te inventei?
e me olharias
entre o espanto e a ternura
na conclusão calada
que sou eu
em verdade
teu próprio delírio”
As cartas, misteriosas a princípio, como na carta de janeiro quando, “na fresta das horas /germina /aflita /uma poesia” e o poema que escorre “um pouco doce /um pouco ácido” se faz presente na ausência do amado, em outros meses se tornam mais íntimas, claras. Na carta de abril, “um bem-te-vi canta /para acordar o dia” para algumas páginas após, ouvirmos que “ao longe, alguém toca Cello Suite 1 e chove”. Os processos sinestésicos ganham tons riquíssimos na poética de Diana Pilatti.
Na carta de junho, o eu-poético compartilha-nos o aconchego de sua intimidade, pois lá fora
“já é inverno
meu querido amigo
lá fora
a água congela o tempo
estalactite cristalina
no beiral da sua ausência
aqui dentro
vez e outra
a lenha no fogo
trinca
o silêncio vítreo
que ornamento
um filete de lua
desacortina a noite”
O destinatário pode estar oculto ou claramente identificado: Órion, Cavaleiro da Lua, Dionísio, são nomes alguns dos nomes deste poeta amado.
A escolha de Diana Pilatti pelo gênero epistolar pode parecer um retorno ao antigo, mas é uma bela surpresa. Em alguns momentos, encontramos ecos das cantigas de amigo, nos versos dedicados ao amado ausente. Em outros, como nas cartas destinadas ao Tempo e à Loucura, há tentativa da poeta em organizar o caos e a complexidade do espaço entre lucidez e delírio.
Não só escreve suas cartas entre os meses e as estações do ano. A solidão das horas e das palavras se expande quando percebemos as ressonâncias da voz do poeta-amado e, entre as cartas, surge uma segunda voz, como nos versos dedicados à Hedonê, senhora das flores.
“os girassóis também me esperam
e quando nós
sóis
suor
e visgo de estrelas
giraluas
e nosso riso
atrai a noite
e nos envolve em silêncio de grilos”
Estas palavras são de fato diáfanas, submersas em águas límpidas, translúcidas, atravessam tempos imemoriais e rutilam entre estrelas. Nos versos marcados pelos resquícios da poesia corisca de Hilst, brevidades de Pizarnik, caminhos de Bilac, ao término desse livro, talvez você se flagre esperando girassóis e, entre alinhavos e contradições, reencontre-se consigo mesmo e, principalmente, com o amor.
Tânia Souza
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