Antologia Poetrix: Mulherio das Letras

by - novembro 02, 2019




1941

Nomeei minha mala
e segui
no Museu do Holocausto déjà vu


SONHO ANTIGO

luto      teimo    desato
Xangô me livre
do Capitão do Mato


MULHERIO

Ecoando além do sertão
a Liberdade encarna e grita:
- ELE NÃO!


ABORTIVO

nas estrias do tempo
o ventre parido
ainda sonha com o filho


CONTOS DE FARDAS

A pequena Zuleide
lê-se na História
Princesa sem final feliz…

(O livro “Infância roubada” conta a história de 40 crianças presas pelo DOPS como “miniterroristas”, incluindo Zuleide, na época com 4 anos, e seus dois irmãos. Entre as diversas atrocidades, eram obrigadas a ver suas mães na Cadeira de Dragão.)


TREM AO PASSADO

nos veios do morro
mulheres líquidas
garimpando ilusões


LUTA

Descem ladeiras
vozes negras baianas:
Ventre Livre!


DIÁSPORA

Nanã chora
com as mães de Mariana
filhas de volta ao barro


BODA DE LÁGRIMAS

Pequena pérola afegã
inocência lacerada
aos porcos o dote


MARÉ

sigo anônima
na pele uma dívida
ecos das minhas avós


EXÍLIO

Manhã de domingo
a idosa ainda espera
os filhos perdidos


DILMA R.

Ante teus acusadores
Austera
Enleio e poesia




Antologia Poetrix
Mulherio das Letras
2019
ISBN 978-85-7134-021-3

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